Sinthoma, de Victor Leandro, conduz o leitor por uma Manaus degradada, cujas ruínas insistem em permanecer de pé
Rapsódia da destruição
Ambientando em Manaus, Sinthoma, novo livro de Victor Leandro, é um romance (ou novela) denso e ágil que mostra como a normalidade e a loucura encontram-se em um constante jogo de espelhos.
O livro começa num hospital psiquiátrico, que vive sua última noite de funcionamento. Prestes a ser fechado, não haveria nenhuma razão em especial para que ocorre algo fora do comum. Porém, com o desaparecimento de um dos médicos de plantão, a trama se complica.
Nesse percurso, o leitor é apresentado a uma galeria de personagens marcados pelo sofrimento e pela instabilidade: traficantes neuróticos, jovens à beira do suicídio e gestores públicos tomados por paranoia. Aos poucos, revela-se uma cidade adoecida, em que a desordem mental deixa de ser exceção para se tornar regra. Nesse contexto, a própria sanidade dos médicos passa a ser questionada, sugerindo que ninguém está imune aos efeitos de uma urbanidade opressiva e desagregadora.
Mais do que um mistério a ser resolvido, Sinthoma se afirma como uma reflexão sobre a miséria política e o abandono que atingem aqueles situados à margem dos centros de poder. O hospital psiquiátrico, embora um símbolo claro, não é o único a representar – ou tentar esconder – essa degradação, que atravessa toda a cidade e seus habitantes.
Ao final da leitura, permanece a inquietante sensação de que a doença não é apenas individual, mas coletiva — ou, ainda, uma construção conveniente aos mecanismos de dominação. No entanto, a literatura está entre nós para nos manter em alerta diante das forças que moldam e distorcem a realidade.
Livro: Sinthoma
Autor: Victor Leandro
Editora: Temiporã Edições
Páginas: 118
Valor: r$ 40
Onde comprar: Amazon, Magazine Luiza e @temiporalivros

Sobre o autor:
Victor Leandro é ensaísta e autor de ficção. Em 2011, recebeu o prêmio nacional Luiz Ruas, destinado ao melhor ensaio sobre literatura, pelo trabalho intitulado O Norte Impossível – Ficção, Memória e Identidade em Narrativas de Milton Hatoum. Publicou as obras O Artista do Fracasso, Estocolmo, Degredo, Rio das Cinzas, dentre outras. Em 2024, recebeu menção honrosa no concurso internacional da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, pelo romance O Fantasma e a Travessia. É professor de filosofia na Universidade do Estado do Amazonas.
