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A escrita como resistência: Victória Abdias revisita o Brasil dos anos 60 em Dear God: o diário de Fever

Por Cibele Laurentino

 Dear God: o diário de Fever, da escritora potiguar Victória Abdias, pertence à segunda categoria. Ao ambientar sua narrativa no Brasil da década de 1960, a autora desloca o olhar para dentro da protagonista, mostrando que os efeitos da repressão política também se manifestam nas emoções, nos afetos e na própria construção da identidade.

A obra acompanha Fever, uma jovem que encontra nas cartas dirigidas a Deus um espaço para registrar dúvidas, medos, desejos e inquietações. Em uma sociedade marcada pela censura e pelo controle dos comportamentos, escrever deixa de ser apenas um hábito íntimo e transforma-se em um exercício de sobrevivência. Cada página revela uma personagem dividida entre as expectativas impostas pelo mundo e o desejo de encontrar sua própria voz.

O romance articula com sensibilidade temas como liberdade, fé, pertencimento e condição feminina. Ao longo da narrativa, um amor proibido, os conflitos internos e o peso das convenções sociais compõem uma atmosfera melancólica que dialoga diretamente com o contexto histórico sem permitir que ele se sobreponha ao drama humano. O resultado é uma obra que aproxima o leitor da experiência emocional de quem viveu ou ainda vive  sob diferentes formas de silenciamento.

A escolha da escrita em formato de diário confere autenticidade ao texto e intensifica a sensação de proximidade com a protagonista. As cartas revelam não apenas sua vulnerabilidade, mas também sua força. Enquanto o país enfrenta um dos períodos mais delicados de sua história, Fever resiste através das palavras, reafirmando que a literatura pode ser um dos últimos lugares onde a liberdade permanece intacta.

Mais do que revisitar um período histórico, Dear God: o diário de Fever propõe uma reflexão que ultrapassa seu tempo. A narrativa evidencia que o silenciamento das mulheres, embora assuma diferentes formas ao longo das décadas, continua sendo uma questão que atravessa gerações. Nesse sentido, a obra estabelece um diálogo entre passado e presente, convidando o leitor a refletir sobre as múltiplas maneiras pelas quais a escrita pode preservar memórias, denunciar opressões e reconstruir identidades.

Sobre a autora

Victória Abdias é escritora brasileira, graduada em Letras (Francês) pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Aos 25 anos, dedica sua produção literária à investigação das experiências femininas e das complexidades emocionais que permeiam a condição da mulher na sociedade contemporânea.

Sua escrita combina delicadeza poética e profundidade psicológica, incorporando elementos do gênero lírico para construir narrativas que exploram identidade, memória, pertencimento e liberdade. Em Dear God: o diário de Fever, a autora reafirma seu compromisso com uma literatura sensível, capaz de transformar a intimidade de uma personagem em uma reflexão universal sobre resistência, esperança e o poder da palavra.

A obra está disponível na Amazon e no site da Atlantic Books Portugal, consolidando Victória Abdias como uma voz promissora da nova literatura brasileira, cuja escrita evidencia que, mesmo nos períodos mais sombrios da história, a palavra permanece como um dos mais potentes instrumentos de liberdade

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