Entre Bukowski, Nietzsche e Angeli: o universo de Augustina
Publicado pela Editora Nauta em outubro de 2025, Augustina, romance de estreia do escritor baiano Alisson de Souza, apresenta uma protagonista difícil de definir, e é justamente nessa indefinição que reside sua força. Inteligente e vulnerável, crítica e insegura, Augustina atravessa a narrativa sem jamais se acomodar em identidades estáveis. Ela pertence aos personagens que se constroem pela dúvida, pela contradição e pela permanente sensação de deslocamento.
Situado no contexto das transformações sociais e culturais dos anos 90, o romance acompanha a experiência de uma jovem que deixa o interior para ingressar na universidade. Mas a mudança geográfica é apenas a superfície de uma travessia mais profunda. Entre novas amizades, descobertas intelectuais e afetivas, Augustina enfrenta as incertezas de uma década marcada pela promessa de liberdade individual e pela ausência de certezas coletivas. Seu percurso é menos uma jornada de afirmação do que um processo contínuo de questionamento.

A narrativa se destaca pelo fluxo de consciência envolvente, capaz de conduzir o leitor por lembranças, reflexões e observações aparentemente dispersas que, aos poucos, revelam a arquitetura emocional da personagem. Há algo de hipnótico na escrita de Alisson de Souza: a prosa avança entre o pensamento e a memória, criando uma atmosfera em que a experiência interior de Augustina se torna o verdadeiro centro da narrativa.
As referências culturais que atravessam o romance não funcionam como simples citações eruditas, mas como elementos constitutivos da visão de mundo da protagonista. Bukowski, Nietzsche e Fernando Pessoa surgem como presenças que dialogam com suas inquietações existenciais. Ao mesmo tempo, o universo urbano de Angeli imprime à obra um tom particular de humor melancólico e desencanto. Não por acaso, personagens como o tio Ulpiano e a tia Rita parecem herdeiros da galeria humana criada pelo cartunista paulistano, povoada por figuras excêntricas, frágeis e profundamente humanas.
O resultado é um romance que transforma as incertezas dos anos 90 em matéria literária e apresenta uma personagem memorável justamente por sua incapacidade de encontrar respostas definitivas. Com uma voz autoral já reconhecível em sua estreia, Alisson de Souza constrói uma narrativa sensível, densa e singular sobre pertencimento, identidade e as inúmeras formas de não se encaixar.
