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Se Eu Me Negasse a Esquecer: memória, maturidade e a coragem de amar

Por Cibele Laurentino

Em um tempo em que a literatura frequentemente se ocupa das urgências do presente, o romance Se Eu Me Negasse a Esquecer, de José Luiz Brito, convida o leitor a mergulhar em uma narrativa onde memória, afeto e maturidade se entrelaçam com delicadeza e intensidade emocional.

A obra apresenta como protagonista Viviane Cordeiro, uma mulher marcada por qualidades que a tornam singular. Forte, sensível e profundamente humana, ela carrega consigo as marcas de desventuras que poderiam facilmente conduzi-la ao desalento. Contudo, Viviane escolhe outro caminho. Em vez de se perder em lamentos ou sucumbir à ausência de oportunidades que a vida lhe apresentou, ela constrói uma trajetória de resistência silenciosa e dignidade.

Já na maturidade de seus dias, quando a vida parece ter estabilizado seus contornos, surge um encontro capaz de alterar o curso de sua história. É então que surge José Henrique, um homem mais jovem, amigo de Clarisse, sobrinha estimada de Viviane. O encontro entre ambos desencadeia uma paixão imediata e intensa, aparentemente improvável diante das circunstâncias que os cercam. Ainda assim, o que poderia parecer apenas um instante passageiro transforma-se gradualmente em um sentimento profundo, tecido com cuidado e cumplicidade.

O relacionamento entre Viviane e José Henrique se constrói em silêncio, muitas vezes à sombra das convenções e dos olhares externos. Há, na narrativa, uma tensão constante entre o desejo de viver plenamente o amor e a necessidade de protegê-lo até que possa florescer sem reservas. Esse percurso emocional é apresentado com sensibilidade, revelando as nuances de um sentimento que cresce mesmo quando precisa permanecer oculto.

Um dos elementos mais interessantes da obra está em sua estrutura narrativa. O romance é conduzido por três perspectivas distintas: a de Viviane, a de José Henrique e, por fim, a de Clarisse. Cada voz amplia a compreensão dos acontecimentos, oferecendo ao leitor camadas diferentes de interpretação. Essa alternância de olhares não apenas enriquece a narrativa, como também aprofunda o retrato psicológico das personagens, revelando conflitos, percepções e afetos que, vistos de um único ponto de vista, permaneceriam incompletos.

A escrita de José Luiz Brito revela sensibilidade para lidar com emoções humanas e com a passagem do tempo. Carioca, aposentado e anteriormente dedicado à contabilidade, o autor vive hoje o que ele próprio descreve como uma verdadeira metamorfose: deixou os números para se dedicar às palavras. Essa transição entre o rigor do cálculo e a liberdade da narrativa parece refletir-se em sua escrita, que combina observação cuidadosa e expressão afetiva.

Casado com Lídia Maria e pai de Carolina e Moisés, o autor encontrou na literatura um novo território de criação. A mudança recente para a cidade de Ribeirão Preto também desempenhou papel importante em sua trajetória literária. Foi contemplando, de sua varanda, uma vasta área de vegetação que surgiram as primeiras linhas de seu romance. O olhar atento, já exercitado pela paixão pela fotografia, ajudou a compor cenários e atmosferas que dão vida ao universo narrativo da obra.

Se Eu Me Negasse a Esquecer é, acima de tudo, um romance sobre escolhas. Sobre a decisão de não permitir que as dores do passado impeçam novas experiências de amor. Sobre a coragem de viver sentimentos que desafiam expectativas sociais. E, sobretudo, sobre a memória como território onde a vida continua a se reconstruir.

Com delicadeza e emoção, José Luiz Brito oferece ao leitor uma história que fala de encontros improváveis, de afetos que resistem ao tempo e de personagens que descobrem que nunca é tarde para permitir que o amor escreva novos capítulos.

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